Canção (Cecília Meireles)
Escrito por Cecília Meireles   
Dom, 27 de Outubro de 2013 01:27

Não sou a das águas vista

Nem a dos homens amada;

Nem a que sonhava o artista

Em cujas mãos fui formada.

Talvez em pensar que exista

Vá sendo eu mesma enganada.

 

Quando o tempo em seu abraço

Quebra meu corpo, e tem pena,

Quanto mais me despedaço,

Mais fico inteira e serena.

Por meu dom divino, faço

Tudo a que Deus me condena.

 

Da virtude de estar quieta

Componho o meu movimento.

Por indireta e direta,

Perturbo estrelas e vento.

Sou a passagem da seta

E a seta, - em cada momento.

 

Não digas aos que encontrares

Que fui conhecida tua.

Quando houve nos largos mares

Desenho certo de rua?

E de teres visto luares,

Que ousarás contar da Lua?

 

Bibliografia:

Meireles, Cecília: Flor de Poemas - coleção Poiesis - 9ª edição - pág. 131 - Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro - 1983.

Foto: internet

 

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